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O jogo em que avançamos ou recuamos casas

Por Ignácio de Loyola Brandão - no Estadão de hoje.


Votuporanga — O longo trem de carga da ALL estava parado no pátio da estação. Eu na plataforma raciocinava como ir para o lado de lá. A única possibilidade era atravessar por baixo do trem, entre os truques. As imensas locomotivas imóveis, de tempos em tempos, soltavam um silvo agudo de ar comprimido, atemorizante. Não tinha jeito, precisava atravessar, portanto me abaixei, rastejei por cima dos trilhos, dos dormentes e das pedras, não vi uma haste de ferro, bati a cabeça, fiquei zonzo, continuei. Se o trem partisse naquele momento, eu teria sido esmagado.
No lado de lá, encontrei a casa de meu tio José e mergulhei naqueles anos entre 1957 e 1960, quando passava as férias ali, levando de Sâo Paulo livros e revistas, que não chegavam ao interior, e discos com os sucessos mais recentes europeus e americanos como o Chá-chá-chá, o twist, o hully-gully e o let kiss. Quem se lembra? Ensinava tios, primos e amigos a jogar buraco (truco já se jogava), comia comida caseira, frangos criados no quintal, leitoas trazidas de sitios, queijo produzido por alguma vizinha. Nâo existia supermercado, tudo era buscado na venda, na quitanda, nas hortas. Às tardes escorriam lentas, curtíamos os lanches com manteiga caseira, pães doces, café produzido no local, leite tirado da vaca, bolachas. A casa do chefe era separada das outras, rodeada por árvores, ainda que todas fossem de primeira categoria, tanto que todas estão de pé e em boas condições até hoje.
Trens passavam, rompendo o silêncio absoluto. Na estação, olhávamos as pessoas, sentíamos o cheiro das comidas do carro restaurante, da bosta de gado das gaiolas, ou dos sacos de café que demandavam Santos. O Noturno excitava, nós os homens percorríamos, a plataforma junto aos vagões leitos, tentando ver se havia uma janela aberta e alguma mulher nua se trocando. Nunca havia.
Em Votuporanga houve tardes de jogos entre a Ferroviária e a Votuporanguense; as festas pelo prolongamento da via férrea até Presidente Vargas, que hoje desapareceu engolida pelas águas de uma hidrelétrica;. a amizade com o jornalista Nelson Camargo (fundador do Diário de Votuporanga) e sua filha, a bela Cláudia, extrovertida, inteligente. Tinha tudo para ser grande, não fosse o acidente de carro que a levou nos anos 80. Tanto era estimada que, hoje, a sala de imprensa da Câmara Municipal tem o nome dela e lá está seu retrato, vigiando os vereadores com aquele riso que desarmava.
Não havia televisão, apenas rádio. Uma noite ou outra, a pé, se perdíamos a jardineira, partíamos para a cidade, que era longe, e pegávamos a sessão no Cine Votuporanga, hoje desativado, mas há um projeto para reativá-lo. A vida corria lenta, Votuporanga era fim de mundo, mas um pequeno paraíso.
Criança, meus pais me levavam, às vezes, à Simonsen, vila diminuta. O trem não parava ali, éramos obrigados a descer na estação seguinte, Votuporanga, e voltar de jardineira. Viver em Simonsen era uma festa, meus tios Benedito e Quita tinham máquina de beneficiar arroz. Esporte radical era a montanha de palha de arroz, sequinha amarelada, na qual nos atirávamos, imaginando que fosse neve. Votuporanga então tinha ruas de terra batida e muita poeira. Parte de minha infância foi vivida em cidades pioneiras, recém-fundadas, encravadas em sertão bruto.
Outra ligação com a cidade foi Geraldo Alves Machado, professor que agora dá nome à biblioteca municipal da cidade. Se alguém abrir meu romance Nâo Verás País Nenhum verá a dedicatória: “A Geraldo que não chegou a ver dedicatória deste livro”. Uma semana antes do livro sair, Geraldo morreu. Foi professor de português e de desenho, homem criativo, alegre, amado pelos alunos. Foi dessas pessoas raras que gostam de cada aluno e olham dentro deles, buscando qualidades. Geraldo fez teatro, seu grupo se apresentou em Sâo Paulo e ganhou prêmios. Naqueles anos 60, as pessoas perguntavam: “Votuporanga? Onde é?” De repente recebiam o impacto de um grupo teatral original. Há pessoas que são determinantes na vida e Geraldo foi na minha. Parente meu, lia, lia, lia, sabia como ninguém a história da arte, e insistia: “vai embora, teu lugar é Sâo Paulo, vai embora!”
Vim à Votuporanga, há quinze dias, para abrir o primeiro FLIV, Festival Literário de Votuporanga, maravilha, uma festa de livros a mais, benvinda seja, tenha vida longa. O festival nasceu da determinação do prefeito Junior Marão e da Secretaria de Educação, Cultura e Turismo Eliana Baltazar Godoi. Semana compacta, com Caravana de Livros, Espaço Clube dos Autores (que estruturou o projeto, misturando bem os escritores), bandas, saraus e shows, projeto Ecotudo, meio ambiente hoje é fundamental. Pelo palco do Salão da Paróquia de Santa Luzia (até o vigário entrou, apoiou) passaram, entre outros, Lourenço Mutarelli, Fabricio Carpinejar e Katia Canton. Almir Sater fechou a semana no dia primeiro de maio com um show que atraiu trabalhadores de toda a região. No ano que vem, o segundo FLIV será numa estrutura construida no meio de um lago. Com muitos livros. Sim, indo lá, passe pelo Filó, e deguste a maciez da costela servida na própria panela onde é feita em fogo de lenha.
Como pode uma cidade provocar um turbilhão de sensações? Fiquei nela apenas 24 horas e fui envolvido por pessoas, lembranças, fatos que mexeram comigo. Subir ao palco da Casa Paroquial Santa Luzia, para abrir o FLIV, significou mais do que um simples acontecimento literário. Envolveu vida, sentimentos, lembranças, demonstração de que as coisas vão e voltam, há caminhos que parecem acabados e são reencontrados de novo. Como nesses jogos em que você avança casas, recua casas, fica parado, pula obstáculos, ganha e perde.
PS: Indignado, penso: Como aceitar a frieza e indiferença com que o senhor Joâo Sayad demitiu o maestro Julio Medaglia da Cultura? Sem razão, sem argumentos. Demitiu em um minuto.



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